QFX – A arma secreta

Vou aqui, de folião, continuar com os meus textinhos sobre a sequência de equipamentos e softwares que tenho usado em minha carreira na CGI. Tenho tido um bom feedback sobre isso, bacana.

Desta vez vou falar sobre o QFX, criado pelo texano Ron Scott em 1990. Tive o prazer de conhecer pessoalmente e conversar com ele em uma Siggraph, o cara foi super gente boa.

Conheçam-o em http://www.ronscott.com/biography.html

O QFX inicialmente era um conjunto de programas que rodavam em linhas de comando DOS, que manipulavam imagens para as placas TARGA e VISTA. TRI, TSI, Blur, Sharp, TMI… eram vários executáveis que escreviam imagens no framebuffer TARGA e as manipulavam de diversas maneiras através de flags e comandos digitáveis.

Neste ponto pude misturar o que aprendi no Cubicomp e no Script, porque fui capaz de modificar o Sequencer do Cubicomp, fazendo-o gerar arquivos .BAT no DOS com uma sequencia de operações frame a frame. Lembrem-se que ainda não tinha sido inventado um Photoshop decente, nem o mercado de edição e composição digital.

Mas nós na Intervalo já fazíamos composições complexas, somando e filtrando imagens frame a frame automaticamente controladas pelos arquivos batch em DOS. O Sequencer era capaz também de interpolar valores e setar steps de intervalos de frames. Os arquivos batch resultantes eram muito sofisticados.

Nesta época, início dos anos 90, abri com a Carla Sprinz uma produtora em SP, a Pickings, e fiz um workshop com uma galera lá. No exemplo/aula que usei para o workshop tive a oportunidade de mostrar como usar o QFX e eles ficaram loucos com isso, pois não tinham idéia de que era possível fazer composição de imagens, abrindo um novo mundo de possibilidades.

Sequencer Modificado

Mas não passei para eles o meu exclusivo Sequencer modificado. Eles dois juntos eram uma uma arma secreta e nos dava um bom diferencial. Tenho ele guardado aqui até hoje, é um talismã.

Usamos muito ele e na época pegamos um contrato com a TV Globo para fazer o resultado do TC Bamerindus. O resultado nos era passado no sábado e tínhamos que fazer o filme de animação no sábado mesmo, pois iria ao ar no domingo. O primeiro deles eu fiz usando um batch que perguntava o resultado e ficava sozinho gerando os frames ao modo do Script, e depois ainda editava sozinho na fita Betacam, também frame a frame. O processo todo levava umas 2 horas. Depois a animação mudou e o Alexandre Sadcovitz fez um programa mais sofisticado usando QuickBasic PRO, mas ainda invocando os executáveis do QFX. Também levava 2 horas, mas era mais sofisticado no gerenciamento das mídias e no tratamento de falhas.

Faustão e o TC Bamerindus

Depois disso os outros softwares foram se sofisticando, o Windows entrou em cena e o QFX foi se tornando rapidamente irrelevante e incompleto. Bom foram os primeiros, que usamos intensivamente.

Abraços e bom carnaval.

Mário Barreto

Crystal TOPAS

Trabalhar na Globograph era bom, era ótimo. Mas tinha limitações evidentes. Tínhamos salário razoável, a equipe era grande, o software proprietário, e isso tudo eram impedimentos para o progresso rápido que queríamos em liberdade, grana e tecnologia. Com o lançamento da Placa AT&T TARGA, dos primeiros PC’s 386, dos primeiros softwares relativamente acessíveis, vimos aí uma oportunidade para crescer.

O primeiro passo foi comprar um PC, uma TARGA 16 Bits e um TOPAS.

Targa+

 

O Topas foi desenvolvido pela Crystal e vendido também pela AT&T como parceiro da TARGA. Era o kit, TARGA + TOPAS +  que era o paint system derivado do True Color Paint que falei em artigo anterior. Um sucesso.

Eu, já na Torre do Rio Sul, mas usando Crystal

O primeiro TOPAS que tivemos, versão 2 ponto alguma coisa, era um lixo completo e quando a primeira versão usável apareceu, 3 ponto alguma coisa, nós escolhemos usar o original, o Crystal e não o TOPAS. Eles eram iguais em features e a diferença era que o TOPAS rodava inteiramente na placa TARGA, no monitor RGB. A interface com o usuário era diferente, e para mim, pior. O Crystal, dividindo a interface em dois monitores, parte na tela CGA e apenas a imagem de TV no monitor RGB, era mais parecido com o Cubicomp, com o Script e a tela CGA mantinha mais informação disponível ao mesmo tempo. Era muito melhor, mas poucos usavam Crystal, a imensa maioria usava o TOPAS que era mais conhecido e vendido em bundle com a placa.

Nesta época tudo era problema. Ainda estávamos na reserva de mercado, então o PC era uma porcaria nacional montado com placas bem vagabundas e caras, em um gabinete horroroso. A Targa e o Tablet Summagraphics foram trazidos em uma viagem por um amigo e o monitor RGB foi fabricado in-house pelo Sérgio Fiúza, modificando uma TV Phillips caseira. Começamos logo esbanjando memória, 8 Mb de RAM, um luxo.

Funcionava bem. O sistema era mais moderno do que o Cubicomp que eu usei, o Picture Maker 30. Era otimizado, render rápido, poucas funções mas tudo o que tinha funcionava bem e com segurança. Era menos aberto em conceito, não tínhamos muito como torturar o sistema para obrigar ele a fazer o que queríamos, ele não tinha muitas portas para isso.

Nesta época, do 5.1, já estávamos migrando para o 3D Studio. Mas vejam como o preço caiu.

Tudo era ruim no sistema, o render vagabundo, a animação difícil de controlar pois ele só respeitava os keyframes iniciais e finais, sendo que os intermediários eram usados como pontos de controle. Mas era um ruim que nos ajudava, pois tendo experiência e sabendo identificar uma imagem ruim e uma animação ruim, conseguíamos atuar para minimizar.

O Cassiopéia foi realizado em TOPAS e eu treinei parte da equipe.

Logo a produtora cresceu e tivemos que comprar mais TARGA’s e aprender uma maneira de duplicar os softwares!! Antes do 3D Studio, cada estação tinha que ter seu frame buffer. Compramos a evolução da TARGA, a TARGA+ e o Sérgio Fiúza e o Alexandre Sadcovitz vieram para assumir estas estações. Junto com o Thomas Wilson a equipe ficou finalmente completa.

Ainda não existia uma rede boa, e no início usávamos cabos centronics paralelos com Laplink para ligar os computadores e transferir arquivos!, e patchs de video para ligar na novíssima Sony BVU-950, controlada por um controlador que o Sérgio construiu. Ainda não usávamos um Encoder, usávamos a saída de composto podre da própria TARGA.

Nossa expertise de TV Globo fez MUITA diferença neste início. Esta instalação, junto com o pacote QFX do Ron Scott, nos permitia fazer coisas que os demais usuários de TOPAS nem sonhavam. Isso nos permitiu crescer bastante e rápido na publicidade.

Para TV, nosso primeiro trabalho grande foi para a TV Manchete, umas vinhetas criadas pelo Adolfo Rosenthal e o Toni Cid Guimarães, os dois também ex-Globo. Lembro que como não tínhamos máquinas de 1 polegada, a TV Manchete levou lá uma BVH-500… vou te contar… ficou pior do que a nossa U-Matic, que era completa e tinha o Board TBC e TC.

O Crystal nos serviu até o advento do 3D Studio, que rompeu barreiras técnicas e marcou uma nova era para os estúdios, mas isso fica para o próximo post.

Como sempre, espero que estejam gostando.

Mário Barreto.

TV Globo – PDI – Script

Então pessoal, continuando a comentar os principais softwares que eu efetivamente usei desde que comecei a trabalhar com CGI, em ordem cronológica, cheguei ao Script. Digo principais porque desde o início de meu relacionamento com os computadores, eu sempre usei um monte de softwares, para administração, programação, apoio e etc. Realmente muitos e eu sempre fui muito curioso. Em uma época muito antes da internet era difícil ter acesso a muitos softwares mas eu dei muita sorte de ir para a Globo Computação Gráfica e ter a disposição dezenas deles. Não era simples (barato) ter um bom PC, e muito menos muitos softwares.

Eu e o Bernardo trabalhávamos com os nossos Cubicomp’s na última sala do segundo andar da casa, onde ficavam os PC’s. Nós de um lado e do outro lado da mesa ficavam o Carlinhos “Barão” com um PC AT que o José Dias trouxe dos EUA abarrotado de softwares de todos os tipos e funções, e a Danuza, rodando o Paint System desenvolvido dentro de casa para o Cromenco, que comentei no artigo anterior. Nesta sala também trabalhou o Marcelo Póvoa. Era bacana, confortável, bem equipada, com um banheiro muito bom, era uma suíte originalmente. Mas tinha um “quê” de segunda linha, pois a grande atração da GCG era o Script que rodava em Unix no VAX e Ridges do térreo e espalhado em terminais VT 100 pela casa toda.

Ao chegar na CGC dei-me com uma instalação inacabada de rede Ethernet. Não lembro porque as coisas não estavam ligadas e funcionando, mas o fato é que as placas, cabos, softwares e conectores estavam todos lá, mas sem instalar e configurar. Não era o meu trabalho, mas enchi o saco do Sérgio Fiúza e do Franco Lizzi para me ajudarem a colocar isto de pé. Eu estava procurando 3 coisas que eram: 1 – conseguir mais espaço em disco para os PC’s Cubicomp. Cada um tinha apenas 20 Mb de HD e os “imensos” discos removíveis dos VAX tinham a ENORMIDADE de 480 Mb de espaço em cada set. Os set de discos eram removíveis, uma doideira e se não me engano tínhamos 2 conjuntos de discos para usar. 2 – Ligar um Cubicomp no outro! Sim, pois antes da rede funcionar, através de TCP-IP bem cru, para transferir arquivos de um PC para o outro só podíamos usar discos flexíveis de 5 1/4 com capacidade de 1.2 Mb cada disco! E davam erro demais. 3 – Estudar UNIX e ir cavando uma oportunidade para trabalhar no sistema principal, onde inclusive o salário era maior.

Lá já estavam a Lucia Modesto, o Roberto Shimose, o Eduardo Halfen, o Alexandre Sadcovitz, a Tita, o Silvio. E mais, Rogerio Ponce, Toni Cid, Sonia Barbosa, Claudia, Carlos São Paulo, Jonas Gomes e Luiz Velho. Uma equipe de respeito. O Silvio saiu e eu escorreguei para o lugar dele.

Roberto Shimose e um terminal VT 100

Tive uma curva de aprendizagem relativamente rápida, pois já sentei no terminal sabendo duas coisas muito importantes que eram os comandos básicos do UNIX e, mais importante, sabendo usar o Vi, o editor de texto que usávamos para absolutamente tudo do Script. Peguei esta manha escrevendo os arquivos .bat e shell’s para ligar os PC’s nos VAX, usando um VI para DOS que veio lá naquele PC que disse acima. E o VI do UNIX.

Todo o sistema do Script não tinha uma única interface gráfica. Da modelagem ao render, tudo era realizado editando arquivos de texto que eram usados como fontes para processamentos e compilações que lá no final resultavam em uma imagem de TV.

A modelagem era feita programando-se primitivas básicas em arquivos de texto, ou processando arquivos de pontos capturados nos tablets, que depois eram usados como entrada de outros programas que os manipulavam para extrudar, girar, deformar e etc. Tudo na tela de fósforo verde do VT 100, tudo letrinha e “numeroszinhos”, gerando arquivos de saída em texto, que por sua vez iam sendo usados como resultados para finalmente rodar um gera-frames que ia fazendo o render frame a frame das animações.

Com o arquivo de imagem pronto no HD, usávamos o comando RI, Read Image, para escrever esta imagem no frame buffer e aí sim ver a imagem. E depois editar frame a frame em um VT.

Imagem muito boa, diga-se de passagem. Um antialiasing animal até hoje, e para a época, um shader muito bem feito, com a luz 3D espalhando-se sobre as superfícies com muita qualidade. Era trabalhoso, era demorado, era limitado, mas qualquer coisa que funcionasse no Script, ficava bonito e bem feito.

Uma pena que não achei nenhuma imagem da tela do sistema, mas não tem muito para ver, texto apenas.

Não vou re-escrever o que já está escrito sobre o Script, PDI e TV Globo. Está tudo nos links que disponibilizo abaixo. Os caras eram muito bons, leiam abaixo:

 

Richard Chuang, Glenn Entis e Carl Rosendahl

 

6.7 Pacific Data Images (PDI)

José Dias

http://memoriaglobo.globo.com/perfis/talentos/jose-dias/trajetoria.htm

O Fim da PDI 🙁

Dávamos um duro danado tentando fazer as imagens nas cores que o Hans Donner queria, com os movimentos e cortes que o Nilton Nunes imaginava, com a precisão que a Ruth Reis exigia, no tempo que o Script permitia…

Ruth Reis e Hans Donner. Eu também estava aí e neste job conhecemos o Capy Ramazzina. Abertura de TiTiTi.

 

O primeiro trabalho importante que caiu na minha mão foi refazer a abertura do Jornal Nacional usando o novo render e novas ferramentas que a evolução do Script permitiram. A primeira versão tinha sido realizada nos EUA diretamente pelo Glenn Entis e Richard Chuang. O que parecia ser um job moleza e perfeito para o mais inexperiente da equipe, revelou-se mais difícil e chato do que parecia. Como sempre, recuperar backups é um inferno e as pequenas mudanças em tudo tornaram necessário fazer de novo, com as novas ferramentas e softwares. Quem mais me ajudou foi o Luiz Velho, e o trabalho foi um sucesso, ficando anos no ar.

Não tive muitas outras oportunidades porque logo depois sofri um acidente de moto e fiquei 1 ano inteirinho de molho em casa me recuperando. Após voltar peguei um projeto de fazer um Fórmula 1, uma modelagem incrivelmente desafiadora para as ferramentas disponíveis e logo após eu saí da empresa para montar a minha própria produtora.

A história do Script é incrível, com pessoas incríveis. Foi uma época marcante, com resultados sensacionais. Uma maneira de fazer computação gráfica que apenas os pioneiros puderam experimentar. Foi um barato ter participado deste momento, com estas pessoas e depois poder dizer que fui também um pioneiro.

Para usar o Script e o Cubicomp também, tive que aprender uma série de  fundamentos e a editar muitos arquivos, algo que não se distancia muito da programação. Uso o Vi com constância até hoje e foi uma escola sensacional.

Vejam abaixo trabalhos realizados com o Script.

Não sei dizer quantas das vinhetas da Globo abaixo foram feitas com o Script, mas com certeza a maioria das feitas em computação.

Espero que estejam curtido, depois continuo, afinal neste ponto aí ainda estou em 1987. Procurei fotos da equipe aqui na Internet, mas não achei. Fotos legais tem no livro do Hans Donner.

Mário Barreto

 

True Color Paint e Digital Arts Lumena

Continuando de onde parei, do Cubicomp, vou escrever sobre o TCP e o Lumena, os dois Paint Systems que vinham com ele e eram necessários para fazer backgrounds, texturas, enfim, manipular imagens digitalmente.

Logo depois a Quantel lançou o Paintbox, que dominou o mercado de Digital Paint para o broadcast e foi a base de onde depois nasceram todos os outros softwares da Quantel que estão aí até hoje. Ser “paintboxer” era uma posição de prestígio para a qual se pagava muito bem. Não tem muito tempo aprendi a usar o Pablo e eQ, e finalmente me senti um paintboxer!

Tela do Paintbox. Mudou pouco…

Uma amiga comentou “pra que ficar lembrando o passado? O negócio é a inovação!” Concordo que a inovação é importante, mas também acho tudo o que está aí a disposição dos inovadores tem uma história e representam um conhecimento que pode ser muito útil. Como disse Isaac Newton “Vi mais longe porque estava apoiado no ombro de gigantes”. Alguém tem que olhar para trás né?

De cara, o que do passado mais me ajuda no trabalho de hoje, é a minha cabeça de gerenciamento de recursos. Eles eram escassos, tinham que ser usados com muita parcimônia. Usar os recursos hoje como se eles continuassem a ser raros, tem me ajudado bastante, pois meus equipamentos estão sempre sendo “economizados” e rendem muito mais.

Vejam por exemplo o que o Lumena exigia… 256 a 512K de RAM e um mínimo de dois disquetes de 5 1/4. Nem HD era necessário, embora eu tivesse a minha disposição estonteantes 20 Mb de HD para trabalhar. Um luxo. Bill Gates chegou a dizer que “640k de RAM é tudo o que os usuários vão precisar na vida”.

Anúncio do Lumena e Specs. Vejam o preço!

O Lumena que usei tinha o diferencial de trabalhar no modo “Map Color”, embora também pudesse em versões mais novas, trabalhar em bitmap high color e full color. E o que significa isso?

Significa que cada pixel na tela de 512 x 481 recebia não uma cor, mas um índice. E este índice era associado a uma cor. Sendo assim, ao manipular os índices, as cores mudavam na tela em tempo real. Geralmente em mapas de 256 cores. Isso na mão de um designer criativo e bom como o Toni Cid dava margem para manipulações incríveis e animações em tempo real, em uma época em que nada era tempo real nos computadores. Toni fez aberturas de novelas brincando com isso.

Abertura de Guerra dos Sexos

Mas não usando o Lumena e sim usando o sistema de pintura que a TV Globo desenvolveu para o computador Cromenco, que era nesta mesma linha, muito parecido até na interface.

O True Color Paint, TCP, foi desenvolvido pela Island Graphics e era igualzinho ao TIPS (Truevision Image Paint System) que vinha junto com as placas frame buffer TARGA (Truevision Advanced Rsater Graphics Adaptor). As placas TARGA dominaram este mercado entry level e depois falaremos dela.

O TCP era um paint bitmap fácil de usar, com seus comandos na tela RGB, com um menu flutuante. Bem limitado em suas ferramentas, mas todos sabiam usá-lo. Tenho um TIPS operacional que funciona até hoje, basta ligar. Era rápido e eficiente mas sem nenhuma sofisticação. Longe, muito longe de um Photoshop de hoje.

Eu usando o meu TIPS

Para controlar ambos usávamos tablets Summagraphics com fio, que precisavam ser conectados aos PC’s através de portas seriais que eram um inferno de configurar os IRQ’s usando jumpers nas placas. Disso eu não tenho a menor saudade.

Um Tablet Summagraphics com o stylus e o puck.

Logo as vantagens do modo Map Color foram ultrapassadas pelo avanço do hardware e software, e o único representante que ficou no mercado por mais tempo foi o Autodesk Animator, que era uma outra porcaria (minha opinião)

 

Tudo isso rodando em DOS, pois o Windows ainda não tinha nascido.

No próximo post vou lembrar o Script, o incrível sistema que a TV Globo desenvolveu com a PDI e que era o máximo naquela época.

 

Abraços

Mário Barreto

Visitando o início – Cubicomp

Meus amigos,

Tem tempo que tenho me dedicado a lembrar, guardar, estudar a história da computação gráfica. O Brasil ocupa um lugar de pioneirismo mundial nesta história, que pouca gente conhece, que quase ninguém fica lembrando e que é muito importante. Pretendo usar minha nova carreira acadêmica em História para ajudar nesta área, e já tenho alguns projetos em andamento. Livros, Mestrado, Exposição, Documentários, uma penca de coisas.

Aqui no Blog da Imagina resolvi ir escrevendo um pouco sobre os softwares e sistemas que eu usei nesta minha carreira. Acho que pode ser útil para quem se interessa por computação gráfica, VFX e animação. As coisas evoluíram muito deste este início. Eu morro de rir quando hoje um profissional chega na minha frente e reclama que o computador está lento porque tem apenas 16 GB de RAM. É uma abundância de recursos atualmente e acho que será útil para eles conhecer como e em que condições este negócio começou.

Eu sempre tive interesse em computadores e vídeo. Em minhas primeiras posições na TV Globo fui exposto as iniciativas do Hans Donner, as do José Dias ainda na Divisão e Pesquisa na Rua Zara, mas meu primeiro emprego em computação gráfica foi na Azimuth Computação Gráfica, do Ormeo Botelho. Talvez tenha sido a primeira produtora particular de CGI do Brasil, futuras pesquisas irão confirmar isso. Era localizada na Praia de Botafogo e equipada com um sistema pioneiro de 3D para PC’s, o Cubicomp Picture Maker.

Propaganda da Época

Fui contratado como criativo, Diretor de Arte, para trabalhar com o Alex Kirst. Mas como sempre tive facilidade com computadores e tecnologia, acabei envolvendo-me com o sistema e aprendendo a usar tanto o Cubicomp como o True Color Paint, o TCP, que era uma versão do futuro TIPS que rodaria nas placas TARGA que seriam lançadas logo depois. Estávamos em 1985.

O setup era o top de sua época, PC’s XT e 286 com co-processadores 80287 (obrigatório) e a espantosa quantidade de 2 Megabytes de memória através de uma placa Intel AboveBoard. O vídeo do computador era CGA de fósforo verde.
O Cubicomp era externo, do tamanho exato do gabinete do PC e se conectava através de um board de conexão.

AboveBoard – Sem os chips de memória

Era uma época em que a separação das imagens de computador e de vídeo era completa. Vídeo era do frame buffer para fora e daí vinham uma série de equipamentos de televisão que permitiam gravar uma imagem profissional.

Encoder, Decoder, Transcoder, Pulse Generator, Controlador de VT, Waveform, TBC, Vectorscope.

O Encoder/Decoder geralmente eram um equipamento só que fazia as duas funções. O Cubicomp tinha uma saída RGB+Sync que precisava ser “encodado/montado” para vídeo composto, que era a entrada da U-Matic BVU-800 que tínhamos lá. Vídeo análogo composto era o padrão da época.

A U-Matic BVU-800 Edit Recorder.

O Transcoder era necessário para gerar PAL-M de NTSC e o contrário. Vivíamos o dilema do “Never Twice the Same Color” ou “Pay me At Live-More”. Ninguém no mundo fabricava em série equipamentos no nosso sistema exclusivo, o PAL-M. O Pulse Generator era necessário para “genlocar” tudo, gerando o pulso de SYNC que amarrava todos os equipamentos.

O controlador de VT era necessário para fazer a máquina editar em inserts frame a frame através da porta Remote 9 Pinos. O computador lia do HD a imagem e a escrevia no frame buffer. Neste ponto, com a imagem estática na entrada do VT, o controlador dava o comando para inserir 1 frame no Time-Code específico. Pré-Rolo, Edit, post-roll. 900 vezes para 30 segundos. Sensacional era ver a máquina editando sozinha.

O board TBC, Time Base Corretor, permitia atuar nos sinais de vídeo e o Wave & Vector para controlar a qualidade dos sinais.

Tudo era caríssimo, os boards TC e TBC opcionais, um setup destes chegava fácil fácil aos 100 mil dólares. Para entry level…

O Alex era um excelente professor e eu rapidamente aprendi a usar tudo o que tínhamos por lá, o Picture Maker 30, o True Color Paint e o Lumena. Hoje vou falar do Picture Maker, deixando o TCP e Lumena para outro post.

Tive sorte de já chegar botando a mão no PM30, que era já bem evoluído na comparação com o 20, que vi lá, cheguei a usar, e era incrivelmente tosco.

Já está meio sumindo na minha memória, mas o sistema era integrado em seções de modelagem, animação e render. No início não tinha camera, vc tinha que animar “rodando o mundo”. Na modelagem, usando todo o poder dos 2 Mb do AboveBoard, tínhamos, se não me engano 2000 mil polígonos para arrebentar a boca do balão. Sem ele, 750, lembrando que uma esfera decente consome uns 500. A modelagem era feita na unha através de coordenadas ou com a ajuda de tablet’s Summagraphics, onde colávamos cross sections dos modelos para ir marcando os pontos na tela CGA. Modelagem na base da pedra lascada.

O render era Gouraud ou Phong, já com Texture Mapping.

Detalhe da Tela do Cubicomp

O uso era bem gostoso, onde vc decorava um ritmo e sequências de shortcuts no teclado e tudo rolava relativamente rápido. Toda e qualquer imagem tinha que sair de render, até wireframe, e o render final tinha tempos comparáveis aos de hoje, mas com uma qualidade de fazer rir para hoje. Na época era pura magia.

Vejam:

Muito bom de usar era o Sequencer, um módulo que sequenciava as operações de render e salvar imagens, um conceito muito poderoso e quem se formou no Sequencer tinha ferramentas mentais muito melhores de quem começou mais adiante com o TOPAS, por exemplo. Aqui clamo um comentário do Alceu Baptistão e do Alex Kirst, os outros dois usuários e amigos que conheço e que foram Cubicomp makers!

Eu cheguei a modificar na unha um seq.exe para usar em todos os softwares de PC que usei na minha produtora, por mais de 10 anos.

Depois de aprender a usar o Cubicomp na Azimuth, voltei para a Globo, desta vez na Globo Computação Gráfica, que tinha 2 iguais. De cara o Dias me mandou para a MPM Propaganda, onde colocaram um sistema para educar os criativos com as possibilidades do 3D e computação gráfica. Gente, lembrem-se que nesta época não tinha sido inventado sequer o Photoshop, não tinha nenhum computador na criação e produção das agências, e a MPM da Rua Dona Mariana era a maior agência do país.

Com o fim desta ação, e com o aumento da demanda interna da Globo pelo trabalho dos PC’s, fui para a casa da Rua J. Carlos, trampar com o saudoso Bernardo, o outro Cubicomper da casa. O Setup era o mesmo, trocando a BVU por uma incrível e rara BVH-2500, que era capaz de editar frame-a-frame sem pré-roll.

Junto com o Bernardo, que era muito talentoso, fiz muita coisa, tanto para a TV como para clientes de publicidade. Nesta época já chegavam os primeiros 386, os primeiros CD’s e disquetes de 3.5. Ainda não tínhamos VGA, apenas CGA e Hércules.

Sempre gerenciando os escasso recursos, contando polígonos. Fazíamos as animações inteiras em wireframe, editávamos na fita, para poder saber se estavam boas e para marcar partes dos objetos que poderiam ser apagadas dos modelos, pois nunca seriam vistas. Nossas animações eram quase todas de casquinhas, sem as partes traseiras invisíveis!

Abertura da Sessão Aventura feita em Cubicomp

Ainda não existia estabelecido o conceito de composição digital como hoje conhecemos, a imagem saía toda do render ou no máximo somando 2 ou 3 layers na hora de colar as imagens no framebuffer.

Usei os Cubicomp’s até ser “promovido” ao Script, o sistema proprietário desenvolvido com a PDI para a TV Globo, que rodava em VAX. Acho que fui a bola da vez porque me dediquei a resolver o problema de ligar os PC’s nos VAX, através de grossos cabos de rede do tipo mangueira de jardim com conectores vampiro, com placas Excelan. Foi uma lenha, tive que escrever um monte de scripts mas funcionou bem. Para funcionar tive que pedir acesso ao sistema do VAX e aprender a usar o Unix, o que naturalmente me colocou na frente do Bernardo na hora que pintou a vaga.

O José Dias me deu como missão encontrar alguém para o meu lugar, uma das mais fáceis que tive na vida, pois trouxe o Alex Kirst, meu mentor inicial, e que após a minha saída ficou por “décadas” na TV.

Eu adorei o Cubicomp, sólido, uma escola e tanto. Praticamente todos os fundamentos de 3D eu adquiri nele. Estudei muito ele. Uma pena que não peguei a versão posterior, já quando a Cubicomp fazia parte da AMPEX, o Picture Maker 60, era muito mais desenvolvida e que o Alceu mastigou com farofa.

Quando tivemos a idéia de sair da Globo e fundar uma produtora independente, algo que de fato fizemos, a idéia era usar o Cubicomp, uma história que caberia sozinha em um livro, mas acabamos por optar pelo caminho mais fácil e usamos placas TARGA.

Graças ao Ormeo, Alex, Dias e Bernardo, tive uma experiência extraordinária com este sistema, um conhecimento que está em uso até hoje.

No próximo Post eu me dedicarei ao TCP, TIPS.

Obrigado e espero que curtam.
Mário Barreto Read more