A GUERRILHEIRA - PEDRO FRANCO
Nasceu em uma república de bananas da América Latina. Via-se do País o Oceano Pacífico, mas sua cidade de origem não tinha mar. Lhamas e coca. Não tinha sido bonita, muito menos feia. Beleza feminina no século XX precisava de cuidados, mesmo quando se era jovem e nos tempos de juventude e amores loucos com homens mais velhos e camaradas de guerrilhas perigosas não havia tempo para ir à academia de ginástica, nem passar cremes no corpo e deslumbrar-se com o movimento dos cabelos diante de espelhos. Cabelos curtos por ser mais prático e não precisar de especiais cuidados, "shampoos" e condicionadores. Estas aflições vieram depois, quando agora usava terninhos comportados e bem cortados. Um professor, seu primeiro amor, pôs-lhe um livro de Marx nas mãos e o primeiro abortamento entre as pernas. Ele, depois desta paternidade frustrada, de fato largou a mulher, mas também o País e por ordem do grupo ela ficou para trás. Não foi preciso sair de casa, pois lar já não tinha aos dezesseis anos. Entoava o hino da Internacional com vigor e aprendeu a fazer bombas caseiras, que nunca falharam. Um camarada vendeu-os por dois réis de mel coado e proteção do governo. Três meses depois este traidor foi justiçado. Presa, aviltada e teimavam em fazer-lhe perguntas pessoais, sádicas, sobre aquele torpe período, que tinha que esquecer no seu agora político. E já lhe bastavam os pesadelos com os noturnos suores apavorantes, lembrando torturas e humilhações. Depois foi trocada e exilou-se em Paris. Aprendeu algo na Rive Gauche, além de fazer política e já estava com vinte e dois anos. Até que gostava de baguetes, bistrôs e sexo mais refinado, sem frases de guerra em meios a orgasmos delinqüentes. E a republiqueta de origem conheceu tempos de aparente democracia e pode voltar. Neste ínterim, antes que novos ventos soprassem na costa do Pacífico, passou por republiquetas fronteiriças, depois pela África do Sul, Chile e Brasil. E os anos correram, pois sempre correm, ou escorrem e chega aos quarenta anos com um passado tumultuado, sem amor fixo, com algumas paixões mais políticas que sexuais e atinge a relativo poder. O poder é bom, inebriante, mas ela tem um passado complicado. Seus amigos lembram-se, alguns novos também e nem sempre as recordações são amenas. Beltranos apagam este passado de lutas e perigos e sugam, aboletam-se no poder. Há delitos, que deve fingir que não vê. Os meios são justificados pelo fim. Porra, mas que fim? Modera o palavreado, esculpe frases e seleciona pensamentos e ações. Engole até sapos e alguns barbudos. Mas de tola nada tem e porfia. Alhos estão misturados com bugalhos. Sindicalistas puros, impuros, desmiolados, aloprados, pelegos, novos idealistas, também jovens sem ideais, com discursos ocos e loucos por boquinhas e vantagens. Agora pode se vestir bem, procurar amores, mas há que trabalhar pelo poder. O que dá pontos nos institutos de pesquisa? O que quis e o que quer? Há noites de insônia e as perguntas torpes insistem em ser feitas. O que foi feito dela, que tinha um cognome e muitos ideais? Continuam os meios sendo justificáveis? Finge que não vê, para crescer no partido? É um falso brilhante? Quem é diamante ainda? Os há? Segue? Pára? Abre a boca? Faz as perguntas necessárias, que fez quando estava aprendendo a fazer bombas caseiras? Quando tinha raiva dos torturadores e que oprimiam. A republiqueta das bananas não vende mais bananas e pode crescer e o povinho, de onde veio, melhorou. Já evoluiu, ainda que pudesse ter progredido ainda mais, tem certeza, mas nada deve dizer. Com perguntas deste calibre sabe que volta à clandestinidade em outra republiqueta e não é um Che, sabe. Não é mais jovem, o poder é bom, automóvel com motorista ótimo, banheiro de luxo, banhos de banheira em águas cheirosas e morninhas, cremes, "shampoos" e botox são consolos e amolecem ideais. Tem até novos amores e bajuladores. Sexo ou amor? Nem sabe mais. Goza com o poder. Hipnóticos acabavam com madrugadas insones e perguntas sobre idéias passadas e de inconvenientes respostas. O velho Machado de Assis perguntava: mudei eu, ou mudaram os natais. Ganhou letras e Cultura geral. Mudou, mudaram os natais, o poder é afrodisíaco, já disseram. E sempre se faz algo sonhado no passado, a vida é curta e que se danem as madrugadas e as perguntas embaraçosas. Tocou a vida e vai tentar contra muitos o primeiro posto, nem que seja por um fugaz tempo. Pode ser até que a tenham escalado para ser boi de piranha. Paga e briga para ver. Ainda que nesta fase de política democrática atuante goste-se menos.



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